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Breve análise de "Ainda estou aqui" e a grandiosidade de mulheres públicas

  • bezerramilleni
  • 26 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 13 de abr. de 2025

Ainda estou aqui é sobre uma mulher. Esse filme é sobre um homem. Esse filme é sobre um casal. Esse filme é sobre filhos. Esse filme é sobre irmãos. Esse filme é sobre família. Esse filme é sobre amigos. Esse filme é um ato político. Esse filme é metalinguagem. Um longa-metragem que dá vazão a muitas interpretações semióticas e psicológicas. Sobretudo, enxergo o protagonismo de Eunice Paiva. Eu me perguntava a todo instante, “quando é que Fernanda Torres vai aparecer como a popular Fátima que eternizou a série Tapas e Beijos?” Mas ela não veio, não apareceu. Com coragem, força, resiliência e dignidade, Eunice é forjada na dor, angústia e sofrimento, provocando a mistura de náusea e empatia no espectador pela melancolia da espera.


A sensação de terror psicológico é pior que de horror explícito? O silêncio é tão ruim quanto a verdade? É mais doloroso quando o amor da sua vida morre bem do seu lado ou quando ele simplesmente desaparece? Para Rubens, Eunice era uma mistura, “a mulher mediterrânea”. A mim também lembra Jackie Kennedy – primeira dama casada com o ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy – viveu o auge do primeiro casamento entre as décadas de 50 e 60. Sob circunstâncias misteriosas, o marido foi assassinado em Dallas (Texas), quando ambos passeavam pelas ruas de carro, atendendo agenda política. A família, de viés democrático e trabalho filantrópico, foi partida ao meio quando Jackie ficou sozinha com os pequenos Caroline e John Jr., dada a morte do pai e marido, em 1963. Há, claro, parentes e amigos que permanecem, mas o ser amado já não se encontra mais ali. Existe agora um abismo entre o cadáver, as roupas, os livros e tudo o que foi construído.


Talvez a semelhança entre as duas mulheres não seja mera coincidência, afinal estamos falando de uma geração recém saída de moldes pré-fabricados de comportamento passivo e submisso, para integrar as engrenagens de novos movimentos revolucionários, na segunda metade do século XX. O filme decepciona o telespectador de um jeito único e cruel: a família vive dias de pura alegria e felicidade, com o enredo tradicional de vida pacata, modesta e equilibrada, bem gerenciada pelo pai de família afetuoso e marido devoto. O homem tem a companhia da mulher, que supervisiona a casa e cuida da educação dos filhos, sem deixar de lado aquela autoestima cara à mulher moderna e esclarecida. Os filhos, apesar de numerosos, têm boa convivência, e os amigos estão sempre presentes, com a camaradagem que faz dos laços duradouros e constroem o respeito. Uma praia maravilhosa, o cachorro brincando no quintal, carreira em desenvolvimento, uma linda casa e a empregada doméstica fazendo as tarefas. O que poderia dar errado?


A despedida serena de Rubens ameniza a sensação de desconforto no estômago, por um momento, ainda que saibamos o que de fato aconteceu, tendemos a nos iludir e crer que tudo ficará bem... Talvez isso seja mesmo só mais um engano ou mal entendido. Mas, o espectador, Eunice, os filhos e os amigos finalmente aceitam que não é; a narrativa ganha novos contornos e outro tom. Cada vez que se pergunta “O papai já voltou?” é dilacerante. A mulher calma e conformada, que acatava a decisão do marido, em troca de constante admiração, agora se eleva. Imponente e altiva, Eunice carrega as humilhações e violências sofridas, mas não desiste de investigar o caso, a ponto de tomar decisões econômicas radicais e tornar a busca por justiça e liberdade uma necessidade, que se transforma em obsessão. Volta aos estudos na universidade, denunciando os desmandos do Estado e lutando pelos direitos de povos originários. A mulher que antes usufruía o afastamento do marido dos holofotes políticos, sai de coadjuvante e passa à protagonista, se entregando incansavelmente ao trabalho, como uma espécie de dever.


Talvez a gota de esperança apareça quando chegam os anos finais: nos damos conta da passagem do tempo, o quão eficaz foi a ação de Eunice ao reconhecimento e à memória de Rubens Paiva. No momento em que Fernanda Montenegro surge como Eunice, na velhice, um rio verte dos olhos de quem vê e o calor no coração encontra o ponto de ebulição: imagina-se as mulheres, as esposas, as mães, as filhas, o tempo, as reminiscências da morte... Eunice faleceu muitos anos depois, vítima de Alzheimer, deixando uma família ainda maior e repleta de tradições e lembranças. É válido mencionar que Jackie morreu vítima de câncer, anos após o segundo casamento (em grande escala trágico e mal sucedido), antes do filho John Jr. perder a vida num acidente aéreo.


Ainda Estou Aqui é dirigido por Walter Salles, com roteiro adaptado por Murilo Hauser, a partir do livro homônimo escrito pelo filho do ex-deputado, Marcelo Rubens Paiva. Dispõe de uma excelente composição estética (edição, fotografia, trilha sonora, figurino, maquiagem, cenário: tudo muito bem produzido) e contextualização histórica do período, com mesclas de cenas filmadas em Super 8. Foi indicado ao Oscar 2025 pela Academia Brasileira de Cinema. Pela atuação, Fernanda Torres pode ser indicada à Melhor Atriz. A mãe, Fernanda Montenegro, foi indicada na mesma categoria, em 1999, por interpretar Dora, no filme "Central do Brasil" – do mesmo diretor. À época, concorria com Cate Blanchett ("Elizabeth"), Meryl Streep ("Um Amor Verdadeiro"), Emily Watson ("Hilary e Jackie"), mas a vencedora do prêmio foi Gwyneth Paltrow ("Shakespeare Apaixonado"). Indispensável dizer o quanto a grande maioria dos brasileiros acredita que houve injustiça no prêmio, por conta disso a torcida é redobrada para que o Brasil conquiste o hexa nas telonas, embora saibamos que o nacionalismo estadunidense nos espera.




 
 
 

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