Revisitando "A alma do homem sob o Socialismo" 132 anos depois
- bezerramilleni
- 7 de nov. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2023
Amplamente conhecido pelo romance O retrato de Dorian Gray (1895) – o qual escreve pouco tempo antes de ser preso e prestar serviços forçados, sob condições degradantes de cárcere privado que lhe reduzem o tempo de vida, Oscar Wilde também publica contos e ensaios, especialmente quando se estabelece na profissão de colunista social. No auge de sua carreira literária, surge a obra A alma do homem sob o socialismo (1891) – de narrativa envolvente que, apresenta pontos de incoerência, principalmente, se encarada de forma síncrona. Fala-se de um autor que habita a Inglaterra vitoriana e, dialoga com temas políticos que se apresentam na esfera social.
Antes de tudo, em lugar de “homem” adapta-se para “humano”. Numa espécie de monólogo interior, de título sugestivo, Wilde apresenta e defende o modelo político ideal e, de forma breve, expõe as causas e horrores da pobreza, da miséria, da escravidão e da fome. Nesse sentido, tece críticas à propriedade privada – e lhe atribui a causa de males como as condições horríveis de trabalho às quais pessoas economicamente desfavorecidas diariamente são submetidas. “Da força coletiva, a Humanidade ganha muito em propriedade material”, afirma; entretanto os indivíduos que dispõe dessa força, em maior escala, não fazem isso por escolha própria, mas por conta de condições variadas, como a ausência de posses ou a ameaça de completa inanição – são esmagados pelo sistema (que os quer assim: obedientes).
Wilde acredita que a existência de condições de vida precárias subjuga uma parcela da sociedade e a impede de se individualizar de maneira “sublime” e “bela” – especialmente por meio da Arte (que suscita a plena expressão da personalidade). Para tanto, não se pode haver “zelo incessante e preocupações mesquinhas” causadas pelas posses. Pois, de outra maneira, promove-se o rigor do Estado em políticas voltadas às transgressões de propriedade privada, e não da pessoa em si. Consequentemente, a propriedade frequentemente se apresenta como “garantia plena de cidadania”, pois confere distinção, posição social, honra, respeito, títulos...
Na linha do pensamento utópico, flertando com o anarquismo, o autor potencializa o Individualismo não-tóxico, para que seja vivenciado de forma plena: desvencilhado da ideia de lucro (“ter para ser”) e alinhado ao ímpeto de autoaperfeiçoamento existencial (“simplesmente ser”). Na sociedade em que há solidariedade, como "organismo inteiramente sadio", a felicidade conduz as ações das pessoas: há mais cooperação e menos competição – em que o sentimento a que se denomina “inveja” está no cerne, por conta de como se lida com a propriedade (e por meio de impressões, percepções e vivências das desigualdades que são causadas), portanto, deixaria de existir.
Wilde ainda discorre em favor da preservação das singularidades presentes em artistas, contrastando às complexas relações estabelecidas com o público; reflete sobre a ideia de progresso atrelada à organização maquinaria; promove equivalências operacionais de autonomia entre Arte, Filosofia e Ciência; exalta Shakespeare e o Teatro, assim como critica as condições sob as quais o Jornalismo "populista" surge, se alimenta e se desenvolve (o qual figura uma espécie de “quarto Poder Político").
Por fim, ainda que a obra seja consideravelmente curta, o que se apresenta diante do leitor é um excelente motivo para se pensar em inúmeras questões que permeiam a convivência humana. Além disso, uma oportunidade para refletir sobre máximas, como: “a desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem.”
BIOGRAFRIA
Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde é o nome do escritor, artista e ativista político, de dupla cidadania (irlandesa e britânica) que dedicou seus dias aos estudos de Artes, sem deixar de lado questões políticas contemporâneas. Nasceu em 16 de outubro de 1854, em Dublin (Irlanda), e faleceu no dia 30 de novembro de 1900, em Paris (França). Teve como companheira/o afetiva/o: Constance Lloyd e Alfred Douglas, e como filhos Cyril Holland e Vyvyan Holland. Formação: Universidade de Oxford, Magdalen College, Trinity College e Portora Royal School.
REFERÊNCIA
WILDE, Oscar. A alma do homem sob o socialismo. Tradução de Heitor Ferreira da Costa. Porto Alegre: L&PM, 2017. 96p.



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